Elegia

A Elegia faz parte do gênero lírico, é de origem grega e é associada à musica - Sendo que antigamente era cantada com o acompanhamento da flauta e posteriormente, passou a ser apenas recitada e usada para leitura.

Diferencia-se de outros tipos de composição do gênero lírico por conta de suas fortes características. A elegia direciona seu foco para abordagens de temas envoltos da tristeza e da melancolia, expressa pensamentos que permeiam sentimentos de morte, de solidão, de desilusão... Enfim, tudo envolta do abalo em que o ''Eu lírico'' se encontra.


Dentre os maiores escritores de elegias, estão Sá de Miranda e Luís de Camões, este ultimo considerado o mestre do gênero. No brasil, Fagundes Varela, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira também escreveram poemas elegíacos.

Abaixo, segue-se alguns exemplos de elegias:

      'Elegia'     
      Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaçam, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava,
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria ?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia ?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estrela fria.
As arvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.

Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quando aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
E sou meu próprio frio que me fecho
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria ?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.

                                                                                          -Carlos Drummond de Andrade.

'Elegia para minha mãe'
Nesta quebrada de montanha, donde o mar
Parece manso como em recôncavo de angra,

Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra

Na dor de ter visto, ó Mãe, agonizar!



Entregue à sugestão evocadora do ermo,

Em pranto rememoroso o teu lento matírio

Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,

A alma que se transia atada ao corpo enfermo.



Relembro o rosto magro, onde a morte deixou

Uma expressão como que atônita de espanto

(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto

Em teus olhos já meio inânimes passou?)



Revejo os teus pequenos pés... A mão fransina...

Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...

A duas gerações passara já teu sangue,

 - Eras avó -, e morta eras uma menina.


No silêncio daquela noite funeral

Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.

Mas não posso pensar em ti sem que me tome

Todo a recordação medonha do teu mal!



Tu, cujo coração era cheio de medos

 - Temias os trovões, o telegrama, o escuro -

Ah, pobrezinha! um fim terrível o mais duro,

É que te sufocou com implacáveis dedos.



Agora que me despedaça o coração

A cada pormenor, e o revivo cem vezes,

E choro neste instante o pranto de três meses

(Durante os quais sorri para tua ilusão!),



Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,

As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,

Voa, diluindo-se no longe das distâncias,

A prece vesperal em fundas badaladas!



                                                                                                                -Manuel bandeira.

Esta ultima é de minha autoria.


Ao embriagar-se, cuidado por onde andas e com o que tu pensas (elegia)

Levanto-me de mais pântanos
Eu sou um homem nojento
Um bicho carente e grudento
Estou jogando fora os meus últimos anos.

Sou do tipo que se perdi bêbado no deserto
Sozinho, desmaio,
Queimo,
Morro e o próprio vento cuida do meu enterro.

Eu sou um crânio furado
Um lar para traças
Eu estou no banco de trás
De uma carro abandonado no meio da rua
Todos passam
Ninguém da a mínima.

Eu escrevo essa elegia
Com meu ultimo pedaço de trapo
Com meu ultimo cotoco de tronco
Com meu ultimo sopro de vida.

Eu estou na borda do cais
Fumando o ultimo cigarro do maço
Soltando as ultimas desgraças pro alto
Tirando os sapatos e virando uma pedra pesada demais.


Alan Tadeu

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