Vozes da (in)visibilidade: Uma reflexão semiótica sobre exclusão do morador de rua pelas lentes da fotografia.

Muitas pessoas perderam entes queridos, pessoas próximas, tem sido fácil notar o aumento na quantidade de pessoas em situação de rua, tem sido comum a circulação de vídeos de pessoas fazendo fila envolta de caminhões de lixo em busca de alimentos e ossos descartados pelos supermercados, mas mesmo assim existe uma lógica que é vinculada na internet como um todo de que tudo isso é muito comum, inerente à existência de uma comunidade humana, e por mais chocantes que essas coisas sejam, não parecem ter tanta importância na prática. Daí a necessidade de mostrar a realidade, incluí-la onde jamais deveria ter saído, principalmente num espaço onde a realidade não é tão quista, um espaço repleto de idealizações.


A fotografia acima foi feita no dia 22 de outubro de 2021, no centro do município de Francisco Morato, na região metropolitana de São Paulo, que é a cidade mais rica do Brasil e uma das mais ricas da América Latina. O comércio da região gera milhares de empregos, arrecada impostos para o município, oferece variedade de produtos e serviços aos seus consumidores e já se torna ponto de referência nas cidades vizinhas. Mas todo esse esplendor ocorre obviamente, com a exclusão do morador de rua da gloriosa, colorida foto final de prosperidade.

Na registro acima, é possível ver a perna de uma pessoa, num cobertor pequeno que não consegue cobrir todo o corpo, pés sujos fora do cobertor e um saco contendo alguns pertences da pessoa. A fotografia é monocromática, o que traz um sentimento de ausência de cores e expressa tanto a ausência de condições básicas pra sobrevivência como a ausência de qualquer sentimento positivo – o que seria impossível levando em consideração a realidade expressa nessa foto. E baseando-se no conceito de Leeuwen, é possível resgatar na memória como essas pessoas praticamente não existem na perspectiva do pedestre rotineiro, ocupado, que os vê mas não os enxerga. É construída na mente dessas pessoas uma realidade em que elas têm ciência da existência desse outro menos afortunado, mas o excluí. Tornando seu mundo imaculado, sem imperfeiçoes, colorido.


A próxima fotografia, que está logo acima, é o retrato de um homem de 48 anos, chamado Cristiano. Além da fotografia, colocamos também o texto de complemento utilizado na publicação com um trecho do diálogo entre o fotógrafo e o rapaz. Nele, o homem comenta sobre a questão da invisibilidade das pessoas em situação de rua e tenta expressar, por meio de alguns adjetivos, quem ele é, caso alguém tivesse interesse em conhecê-lo – o que no entendimento dele, não é algo comum . As redes sociais como o Instagram nos proporcionam esse tipo de expressão textual escrita que servem como complemento das fotografias, e assim foi possível unir a fala do Cristiano com a composição da foto. A composição da foto também traz o preto e branco, assim como a anterior, e por ser um retrato, nos possibilita ver as marcas que a vida tem cravado na pele de milhões de pessoas. O rosto do Cristiano é o rosto de tantas outras pessoas que não tem o direito de sobreviver, que estão se alimentando de lixo e que são ignoradas tanto pela sociedade civil quanto pelo Estado.

Os espaços de diálogo que estão disponíveis hoje, principalmente por consequência do avanço das tecnologias que formam esse corpo ao qual chamamos de internet (desde aparelhos mais desenvolvidos que suportam variados tipos de internet como a banda larga, fibra ótica, 3G, etc), se tornaram uma extensão da socialização humana. Os afetos e as subjetividades dos seres  humanos estão diretamente ligados a essas tecnologias e os espaços como o Facebook, Instagram Twitter, dentre outros locais virtuais, estão repletos de significações e de possíveis caminhos a serem traçados utilizando a semiótica em suas variadas vertentes como ferramenta. A exclusão de pessoas que têm um padrão de qualidade de vida muito abaixo da média não é algo novo, mas é impossível não notar o agravamento dessa deficiência social após a crise do capital que está em curso. Dentre as diversas discussões sobre raça, gênero, sexualidade, e outras que estão nos “trends” do mundo virtual, buscamos analisar uma que fica um tanto à margem de tudo isso. Buscamos refletir sobre as pessoas que não têm espaço nesses diálogos e que sofreram as últimas consequências das problemáticas de raça, gênero, sexualidade, etc. Talvez a utilização desses espaços com foco nessas pessoas eclipsadas possam ao menos causar um incômodo em uma das bilhões de pessoas conectadas nas redes.

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